1994 - 8ª Série - Adolescentes são criativos
Ano de mudança para Liesel, depois de 3 anos na mesma escola onde se sentia como no inferno de Dante, finalmente ela mudou, foi para uma escola pública, onde acreditava que os alunos fossem mais sociais e menos mal intencionados. Liesel acreditava que quem as frequentasse geralmente vinha de baixa renda, com infância humilde, muitas vezes sofrida, com cabeça totalmente diferente, então, agredir verbalmente e humilhar as outras podia ser coisa que tinha ficado pra trás. Até tinha um pouco de razão, mas não, você não fica totalmente liberto de certas coisas por seu ambiente estar "menos vulnerável" a isso, a diferença é a escala. Pode ser que ela tenha sentido diferente, mas pra ela, aquela escola o bullying era em menor intensidade e neste ano ela não foi afetada, mas viu outro menino ser perseguido todo o ano corrente. Pior de tudo é que ela não podia ajudar, fazer nada, a partir do momento em que você tenta socorrer alguém, você automaticamente vira alvo, e quando você sofre com isso por 3 anos, a melhor defesa nesse instante é a covardia, o medo de tentar ajudar e cair novamente nas mãos de quem pode te desestruturar psicologicamente por um bom tempo.
Liesel não era a melhor aluna da turma, mas até esse momento nunca havia tido problema com notas, aliás, nem algo sério a ser considerado. Quando sua mãe era chamada na escola, era pra resolver coisas de crianças, nada que afetasse o bem estar de outrem.
Certo dia uma prova de geografia foi realizada e por alguma conspiração do universo/e/ou estudo de Liesel, ela tirou 6 na prova, onde a média era 10 e todos os outros tiraram 4 ou menos que 4. Era uma prova de 5 perguntas, onde cada uma valia 2 pontos. A pergunta que ela respondeu e ninguém mais? O que foi a bipolarização do mundo? Este foi o gancho para fazer novas amizades, conhecer mais colegas, pois nesse momento todos iam conversar com ela para saber qual a pergunta, o que estudar para a próxima prova, montar grupo de estudo, etc. Nessas conversa uma menina a chamou pra ajudá-la, para estudar nos intervalos, na hora do lanche, no tempo que desse, essa menina se chamava Thaiana. Thaiana era morena, cabelos lisos, olhos grandes, magra, baixa pra sua idade, mas seguia o padrão do estado, onde a estatura não média de alguém com 15 era 1,50. Liesel era o oposto, um pouco mais alta, cabelo enrolado, olhos pequenos com traços bem indígenas e um pouco, magra, mas sem cintura, como havia dito sua irmã no passado.
Liesel aceitou o pedido de Thaiana e começaram a andar juntas, na hora do lanche iam pra pracinha em frente da escola estudar, chegam cedo para se reunirem na pracinha, estudavam, brincavam, passeavam juntas, faziam tudo juntas, Liesel pegava até o mesmo ônibus da amiga, apesar da parada de ônibus ser mais distante de sua casa, só para que pudessem ficar mais tempo juntas.
Pausa para falar da pracinha em frente a escola: essa pracinha desde muito sempre reuniu pessoas, principalmente adolescente e novos adultos de todas as tribos, mas mais especificamente aqueles que gostavam de rock and roll e suas vertentes. Nessa praça era possível ver de tudo, desde o roqueiro "Nutella", até o roqueiro de beira de praça mesmo, que parava com um rádio dos anos 80, cheio de pilhas e ouvia Raul Seixas.
Essa praça era lugar também de onde vários hippies paravam para vender seus trabalhos e socializar com as pessoas. Esta pracinha também era o ponto de encontro de maconheiros, não importava a hora do dia, fumar maconha era o principal motivo para muitos frequentarem a praça. Era comum as 5 horas da tarde amigos se encontrarem para conversar e fumar uma bola, como muitos diziam, depois da maconha era hora de comprar o Kikão de cinquenta centavos e ir embora pra casa, amanhã era outro dia.
Liesel e Thaiana frequentavam aquela pracinha juntas, mas sempre ficam longe dos maconheiros ou de quem naquele momento pudesse parecer uma ameaça, elas sabiam o que era, seus efeitos e se envolver naquela idade não era nada saudável. Suas rotinas era irem na pracinha pra estudar, conversar, deixar a hora passar e ir pra casa, e faziam a mesma coisa todos os dias.
Tudo parecia estar indo muito bem, até que certo dia antes de começar a primeira aula Liesel é chamada na sala dos diretores, sem saber o motivo de estar indo para o lugar onde ninguém queria ir.
Quando chegou na sala sua mãe já estava lá, haviam a chamado antes, acompanhada do pai de Thaiana e Thaiana. Naquele momento ainda sem entender nada, ouviu do pai de Thaiana que estava levando sua filha para a praça pra fumar maconha, e o pai de Thaiana era policial. Continuando sem entender muita coisa, Liesel olhou profundamente para Thaiana, como se tivesse questionando o que acabara de ouvir e ficou sabendo pelo pai, que a filha havia dito para algumas vizinhas que ia para a praça com uma amiga roqueira fumar maconha todos os dias e esta amiga era Liesel. Preocupadas com a situação, uma das vizinhas avisou a mãe e o pai de Thaiana, que foram tirar satisfação na escola.
Sim, Liesel desde aquela época já gostava de rock, mas a maconha não era algo experimentado, se quer sabia o cheiro da erva.
Liesel olhou assustada para Thaiana e tentando buscar algo que pudesse fazer entender o porquê daquilo, mas não conseguia, ouviu todas aquelas acusações calada, até a deixaram falar, mas nesta hora ela já estava chorando, suas falas saíam travadas, enguiadas, não conseguia falar, mas chegou a dizer que não fumava maconha, que nunca fumou, que não sabia como era fumar algo. Sua mãe neste momento a interrompeu e a defendeu, disse que Liesel poderia ser danada, bagunceira, moleca, mas maconheira não, ela convivia com ela, ela a acompanhava até a escola e quando podia na volta da escola, sabia seus comportamentos, a conhecia bem e tinha absoluta certeza que ela não era maconheira. Até que os ânimos se acalmaram e Thaiana falou: "Ela nunca fumou maconha comigo, ou me levou pra fumar maconha, foi algo que criei por brincadeira para as vizinhas e elas levaram a sério". Nesta hora o pai a mandou calar a boca e que não tinha o direito de falar nada, que dali iam embora pra casa e veriam o que fariam relacionados a escola, todos foram embora com uma carga emocional pesada.
No outro dia de aula as coisas já haviam mudado, Liesel a pedido de sua mãe foi transferida para outra turma, foi proibida de falar com Thaiana e não podia mais andar na praça. Thaiana por sua vez, não podia falar com Liesel e muito menos andar na praça.
As duas nunca mais se falaram depois desse episódio triste. Liesel não tinha culpa de nada, mas foi culpada, Thaiana com sua mente fértil conseguiu estragar uma amizade tão doce e verdadeira, para sentir o gosto da aventura, do ser radical, descolada e da onda. O que este episódio trouxe foi afastamento, decepção de Liesel, quebra de algo que poderia ser duradouro, a amizade das duas.
Liesel ficou abatida por muito tempo, triste por muito tempo, mas no fundo ela não ficou com raiva de Thai, como assim a chamava, pois sabia ela não teve maldade, sabia que ela queria ser diferente pras amigas vizinhas, queria mostrar que havia mudado, mesmo que não de uma forma positiva, mas sabia que a intenção dela não era prejudicá-la, mas a usou e essa criatividade levou para uma avalanche de situações definidas que jamais poderiam ser mudadas e uma amizade era desfeita, sem motivo real.
A amizade de Liesel se foi, com ela, aquela doce alegria de ir a escola todos os dias, a ingenuidade de acreditar que as pessoas não inventam coisas e a ideia de que o ano de 94 seria diferente dos anteriores.
Após essa situação, aconteceu algo muito triste para o Brasil, a morte de Ayrton Senna. Não vou me aprofundar pois muitos já falaram, comentaram e narraram, mas saibam que esse evento deixou Liesel muito pra baixo, pois do dia 1 de Maio de 94, ela assistia a corrida, viu a cabeça dele se mexer, ainda tinha esperança, o que foi tirado depois de algumas horas, quando confirmada a morte do atleta, digamos que um dos maiores de todos os tempos.
No dia 2 de Maio, na hora do recreio, uma turma se reuniu no centro do colégio onde estudava, era um corredor bem grande, espaço bem grande, todas as turmas foram chamadas, eram mais de 150 pessoas, incluindo professores e alunos. Uma aluna do primeiro ano assumiu a movimentação e pediu um pai nosso de todos, o silêncio pairava e após só ouviam -se a oração mais conhecida no mundo, alunos em lágrimas, comoção total. Logo após a oração foi solicitado que cantassem a "Canção da América", de Milton Nascimento, que era a preferida de Ayrton. Papéis com a letra da canção foram impressos e distribuídos a todos e um grande coro e de choro se formou naquela escola. Naquele momento, Liesel e Thai uma oposta a outra, olharam-se com carinho, cantaram e choraram. Assim como foi a despedida de Ayrton, foi a despedida daquela amizade e para Liesel o ano de 94 acabou.
Essa época do acidente de Ayrton Senna eu me lembro como se fosse hoje
ResponderExcluirAcho que todo mundo lembra desse dia. Bem triste.
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