1991 - 5ª Série - Bullying
Alguns anos se passaram, algumas séries e lá está Liesel no quinto ano. Mudou de escola, foi pra uma escola particular. Na ocasião sua família apesar de pagar com dificuldades, acreditou ser a melhor opção para que ela tivesse mais chances de entrar em uma escola melhor no segundo grau, quem tem uma base melhor, melhor chance de passar em um mini vestibular para estudar nos melhores colégios.
Com a mudança, os amigos também mudaram. Liesel já no primeiro dia simpatizou com uma menina logo no primeiro dia e vieram a se tornar "melhores amigas", mas essa história fica pra depois.
Neste mesmo ano ela veio a conhecer o famoso "Bullying". Na época nem usavam-se essa palavra, mas após muitas explicações ela veio a entender o que era.
Muitas vezes acreditamos que bullying começa por pessoas que não gostam da gente, que não estão perto da gente, que não simpatizam, levando a agirem de forma errada, fazendo coisas ruins, pelo simples prazer de verem as pessoas "mal queridas" em uma situação desfavorável, sim, muitas vezes isso é verdade, mas outras não. O bullying pode começar com pessoas que dizem que te amam, que estão contigo, que você confidencia coisas e acredita serem até seus melhores amigos.
Liesel sem saber já sofria bullying na sua casa. Sua irmã era 6 anos mais velha, a bonitinha da casa, corpo bonito, rosto bonito, Liesel não ligava e nem se preocupava com isso, até que começou a reparar nessas coisas depois que sua irmã começou a falar coisas estranhas e constrangedoras a ela na frente de seus colegas de escola, amigos de infância, qualquer lugar, parecendo ser a coisa mais natural do mundo, mas que não era, era horrível para Liesel aqueles momentos, uma tortura involuntária e desnecessária. O que Liesel mais ouvia é que tinha o corpo feio, sem cintura, desengonçada, não se vestia como menina, e vinha a palavra "mágica": quadrada, onde todos riam dela, a roda de brincadeira deixava de ser brincadeira para virar roda de xingamento e Liesel era o centro das atenções. Até esse momento Liesel se quer sabia o que era ser quadrada, depois analisando os xingamentos, era quem não tinha corpo definido, não tinha cintura, era gorda, ou gordinha, o que importava, era uma palavra ruim.
Na maioria das vezes ela saía, ia embora, se isolava, não tentava revidar, pois o constrangimento a deixava sem forças para tentar nada.
Certa vez foi pedir ajuda a sua mãe, explicou o que estava acontecendo, mas sua mãe ao invés de tomar alguma atitude, riu discretamente da situação, olhou pra sua irmã pedindo para parar, mas não foi um pedido, foi também um riso parecendo também compactuar daquela situação, e pediu pra parar rindo, como se aquilo não fizesse diferença nenhuma, só o fez por que estava na frente de Liesel, para ver se ela se conformaria e fosse mais falar daquilo situação. Sua mãe e irmã riram e ela viu, para sua mãe aquilo não fazia diferença, não deu atenção, não protegeu alguém que não tinha proteção e muito menos apoiou. Não soube lidar com aquilo, achando que era mais uma "frescura"e que logo passaria, mas não foi assim. Só quem sofre o bullying sabe que não é assim, que não é algo que você dorme e no outro dia acorda com tudo deletado, com a sua vida linda e em paz, não, não se deleta uma humilhação ainda mais diária, não se deleta.
Liesel entendeu que com sua mãe ela não resolveria nada e decidiu seguir em frente, sozinha, encarando a situação e muitas vezes não fazendo parte do grupo ou qualquer atividade em que sua irmã estivesse presente, para que não tivesse que de uma hora pra outrae ser humilhada na frente de todos.
Para muitas pessoas que estão lendo isso pode não parecer nada, mas acreditem, para uma criança na pré adolescência isso é muito, é humilhação, é dor, é vergonha.
Partindo ainda do princípio do bullying, o segundo "experimento" de Liesel veio da sua amiguinha da escola, a mesma que ela conheceu no primeiro dia, a que andavam juntos o tempo todo, da que iam dormir uma na casa da outra, da amiga que ouvia as confidências, que compartilhavam o lanche, os trabalhos, tudo, elas eram melhores amigas, tinham que se proteger, mas não foi assim.
Por algum motivo que Liesel desconhecia, sua melhor amiga começou um massacre psicológico em Liesel na escola, criando consequências sem volta para os próximos anos que Liesel frequentaria aquela escola.
Cibele era uma menina inteligente, esforçada, contava sempre com a ajuda dos pais, vivia relativamente bem, usava as melhores marcas de roupas, cadernos, seu pai sempre a levava e buscava na escola, mas isso não fazia diferença, o que importava era a amizade.
Certo dia Cibelle convidou Liesel para fazer um trabalho de escola em sua casa, pois tinham que entregar juntas no outro dia, Liesel pediu autorização de sua mãe e foi fazer o trabalho com a amiga. Tudo andava bem até a ida embora pra casa. Cibele tinha alguns "amigos" na rua que não gostavam muito dela, quando ela passava, eles a xingavam, juntavam na rua alguns meninos e meninas para soltar apelidos nada carinhosos para aquela menina de 11 anos.
Liesel ficou completamente constrangida com a situação da amiga, ofereceu apoio, deu seu ombro amigo e disse que com ela isso não aconteceria, mas o que Liesel jamais esperava era que a amiga fosse jogar tudo contra ela. No outro dia, no fim da aula, havia um jornal semanal da sala, uma espécie de leitura dinâmica onde contavam o que acontecia, coisas engraçadas, próximos temas de trabalho, poesias e Cibele era uma das leitoras. Aproveitando-se desse papel, Cibele publicou uma notícia dizendo: Liesel visita a casa de Cibele e quando os garotos da rua a vêem logo a chamam de "capivara".
Esta nota soou como música para todos os supostos "inimigos" de Liesel e a partir daí ela não tinha mais um nome, ela era a capivara da escola, onde quer que fosse, o que fizesse, atividade, ela seria sempre a capivara.
Mas vejam, esse apelido não era de Liesel, era de Cibele, seus amigos de infância e rua a chamavam assim, mas ela queria tirar isso das costas, da cabeça, da sua vida e jogou na sua até então melhor amiga. Talvez fosse uma forma dela fugir daquilo, de não viver mais aquelas humilhações, mas fez da forma mais cruel possível, jogou na sua melhor amiga a carga que ela não conseguia mais carregar e Liesel era a batata da vez.
Liesel não tinha mais vida, não era mais Liesel, tudo o que fazia, o que tentava fazer, uma apresentação de trabalho, uma brincadeira na quadra, um lanche na escola, sempre de algum lugar, do fundo da sala, de trás do corredor, do fundo da quadra alguém estava lá gritando o seu fiel e escudeiro novo apelido "capivara".
A vida de Liesel se transformou num pesadelo, não tinha mais vida, vontade de estudar, brincar na escola, ir para a escola, mais uma vez pediu ajuda a sua mãe, mas sua mãe entendeu que aquilo era normal, que aquilo ia passar, que crianças eram assim e não agiu, não a tirou da escola e a obrigou a continuar naquele colégio por mais 2 anos.
Para quem não passa, não vive ou não se sente pressionado por um bullying pode parecer normal o que acontecia, mas não para Liesel, para ela era um tormento acordar, um desespero ter que ir pra escola e uma falta de vida quando na mesma estava. Para Liesel eram dias de dor, angústia e vontade de não seguir em frente, pois ela não era mais um ser humano, havia se transformado em um animal, era conhecida como um animal e tratada como um animal, criado e idealizado por sua melhor amiga, Cibele.
Os próximos dois anos não tiveram história de vida, Liesel era um animal e assim continuou sendo.
Sua amiga Cibele? Continuou a estudar, conheceu novos amigos, teve seu primeiro namorado na escola, seguiu uma vida de uma adolescente normal depois que a carga foi passada.
Liesel não sabe se algum dia isso deixou marca em sua amiga, se ela pensou no mal que havia feito, no prejuízo que deu ao crescimento de alguém, alguém? Sua amiga, indefesa e sem proteção. Mas Liesel sabe que nela as marcas ficaram, o medo de fazer amigos, o medo de se envolver com alguém, a vergonha de ser quem era e de sempre se olhar no espelho e enxergar um bicho feio ao invés de uma criança na pré adolescência. As marcas? Sempre estiveram e estarão lá.
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